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Balada do Homem que se Desfaz em Rima

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Theo vento·6:10

Lyrics

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Abertura – agulha encontrando o sulco de um disco esquecido

Ele amou aquele tempo como se o tempo fosse um último beijo

e a cada verso, um passo de dança que esquece o chão

que esquece o corpo

que esquece até a música

Primeira estrofe – voz de homem que fala sozinho na madrugada

Ele beijou sua mulher

como quem beija uma saudade que ainda não existe

e chamou cada filho pelo nome

—nomes que inventou na hora exata de morrer

Cruzou a rua de asfalto quente

com o passo pesado de quem atravessa um rio de cimento

Subiu o andaime range-range

como quem sobe pela própria coluna vertebral

e ergueu, no décimo andar,

quatro paredes que não sabiam que eram túmulo

Tijolo por tijolo vermelho

como se cada um guardasse um batimento do coração

Olhos cegos de cal, suor e lágrima seca

como se o mundo inteiro fosse feito de poeira santa e arrependimento velho

Refrão – samba-canção tocado em piano de cabaré às três da manhã

Ele se sentou pra descansar

como quem se senta no próprio velório

Comeu feijão com arroz e torresmo

como quem mastiga a última memória de um sábado feliz

Bebeu cachaça e soluçou

como uma máquina enferrujada que aprendeu a chorar

Dançou um samba desengonçado e riu alto

como se a música fosse um erro que valeu cada nota

Tropeçou no céu de meio-dia

como quem tropeça no próprio nome esquecido

Flutuou três segundos no ar

como o sábado que nunca chegou pra ele

Caiu de costas no chão

como um pacote de ossos cansados que ainda tremiam de medo

Agonizou ali no meio-fio

como quem morre no meio de uma frase sem ponto final

E morreu na contramão atrapalhando o trânsito—

interrompendo até o trânsito de Deus

Segunda estrofe – a mesma melodia transpostada, como pesadelo recorrente

Porque ele amou aquele tempo maldito

como quem ama uma máquina que te cospe na calçada

Beijou sua mulher de olhos fechados

como quem beija uma equação que nunca fecha a conta

E viu cada filho crescer

como sábados que nunca foram dele, nunca foram de ninguém

Cruzou a rua cambaleando

com o passo torto de quem atravessa a própria lógica despedaçada

Subiu o andaime balançando

como quem sobe no próprio impossível

Ergueu paredes de tijolos bêbados

como quem ergue um castelo de música desafinada e cimento podre

E seus olhos cegos de poeira e trânsito

viram o mundo como ele sempre foi:

feito de tempo que foge e engano que fica

Ponte – frequência de rádio morrendo, voz virando estática

Ele foi embora

sem saber que era ele quem ia

Morreu de olhos abertos

sem saber que era um homem de verdade

E a rua continua interrompida—

o buraco no asfalto onde ele caiu

E o céu continua tropeçando

em cada pedreiro que sobe

E a música continua saindo dos ossos dele,

subindo do cimento, do meio-fio, da contramão

como se a morte fosse apenas

um erro de ritmo

um compasso perdido

uma nota fora do tom

Final – eco infinito de botequim fechado

Ele amou

como se amar fosse o último erro que um homem pode cometer

Ele dançou

como se dançar fosse o primeiro acerto de uma vida inteira errada

E caiu

como quem cai no meio de uma melodia

que ainda não acabou

que nunca vai acabar

que continua tocando

mesmo depois que o disco quebrou

(silêncio)

(chiado do vinil)

(a agulha patinando no vazio)

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*[ Voice style suggestion: a warm, expressive, introspective male voice — tone and phrasing similar to a poetic storyteller from Brazilian popular music, soft vibrato, emotional control, vintage microphone color.]*

*[ Recommended genres:

melancholic samba fusion, cinematic jazz poetry, lo-fi bossa reflection, urban storytelling, soulful latin ballad, ambient acoustic samba, existential cabaret, poetic folk fusion, emotional singer-songwriter,]* slow samba groove

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